SOMBRAS E MEDOS
A MÃO
FECHADA E OS OLHOS ABERTOS
Sobre
aquilo que nos aprisiona por dentro e aquilo que nos torna cúmplices por fora
Por
Hiran de Melo
Resumo
(Abstract)
O
ensaio aproxima a metáfora da mão fechada em torno de uma faca, que representa
a dificuldade de abandonar aquilo que nos fere, da cegueira coletiva retratada
por José Saramago em Ensaio sobre a Cegueira. A partir dessas imagens,
reflete sobre as contradições humanas, os vínculos emocionais destrutivos, os
mecanismos de autoengano e a indiferença diante das injustiças sociais.
Argumenta que reconhecer o sofrimento não significa, necessariamente, estar disposto
a transformá-lo, assim como enxergar uma injustiça não implica assumir
responsabilidade diante dela. A liberdade é compreendida como um processo que
exige consciência, participação, disposição para rever escolhas e coragem para
romper com padrões que perpetuam o sofrimento individual e coletivo. Sem
ignorar os limites pessoais e as condições sociais que restringem a autonomia,
o texto propõe uma reflexão sobre a responsabilidade ética, a espiritualidade e
a transformação da existência.
Palavras-chave:
liberdade; consciência; sofrimento; autoengano; responsabilidade ética;
cegueira moral; transformação existencial.
Há
prisões que não possuem grades.
Algumas
cabem na palma da mão. Outras se escondem atrás dos olhos.
Carregamos
certas coisas por tanto tempo que já não distinguimos o peso daquilo que
seguramos do medo de viver sem isso. Também existem verdades que preferimos não
enxergar, porque reconhecê-las exigiria mudanças para as quais ainda não
encontramos coragem.
A
mão fechada e os olhos cegos talvez contem a mesma história: a dificuldade
humana de romper com aquilo que nos mantém aprisionados.
A faca que não conseguimos soltar
Imagine
alguém segurando uma faca pela lâmina.
O
sangue escorre. A dor aumenta. Ainda assim, a mão permanece fechada.
Alguém
se aproxima para ajudar, mas percebe que, se tentar retirar a faca à força,
poderá agravar o ferimento. É preciso que a pessoa abra a mão.
A
imagem parece simples. A existência, entretanto, raramente é.
Nem
sempre seguramos aquilo que nos machuca porque desconhecemos a dor. Às vezes,
continuamos agarrados porque tememos o vazio que surgirá quando soltarmos.
Um
vício pode destruir a vida e, ao mesmo tempo, oferecer alívio passageiro. Uma
dependência emocional pode humilhar e ainda alimentar a esperança de sermos
finalmente reconhecidos. Uma mágoa pode consumir nossos dias e permanecer como
o último vínculo com uma história que não conseguimos aceitar como encerrada.
O
que machuca também pode ter se tornado familiar. E o familiar, mesmo doloroso,
oferece uma espécie de segurança.
A
prisão se torna mais complexa quando deixamos de depender apenas daquilo que
nos aprisiona e passamos a depender da identidade que construímos ao redor
dela.
Soltar
a faca significa enfrentar a ferida e o medo de descobrir quem poderemos ser
sem aquilo que, durante tanto tempo, ocupou nossa vida.
A
liberdade não consiste apenas em abandonar alguma coisa. Exige também aprender
a existir sem ela.
A cegueira que nos protege
Em
Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago imagina uma cidade na qual as
pessoas perdem a visão e uma mulher conserva a capacidade de enxergar.
A
cegueira se espalha, a ordem social desmorona e a convivência revela aquilo que
a aparente normalidade escondia. O medo, a violência e a humilhação expõem a
fragilidade das convenções que sustentavam a vida coletiva.
A
mulher que enxerga carrega um fardo particular: presencia aquilo que os outros
não podem ver e precisa conviver com uma realidade da qual não consegue se
afastar apenas fechando os olhos.
A
força da narrativa ultrapassa a perda física da visão.
Podemos
enxergar perfeitamente e permanecer cegos diante da dor alheia. Podemos
conhecer a injustiça, compreender suas consequências e continuar agindo como se
ela não nos dissesse respeito.
A
cegueira moral não depende necessariamente da falta de informação. Muitas
vezes, nasce das justificativas que produzimos para preservar nossas convicções
e nossos interesses.
Vemos
a fome, mas culpamos quem passa fome. Condenamos a corrupção, desde que não
comprometa aqueles que apoiamos. Testemunhamos a humilhação de alguém, mas
desviamos o olhar quando intervir pode nos trazer algum inconveniente.
A
consciência percebe. O interesse negocia. O medo aconselha o silêncio.
E,
pouco a pouco, aprendemos a conviver com aquilo que deveríamos enfrentar.
Talvez
uma das formas mais perigosas de cegueira seja aquela que preserva intacta a
imagem que fazemos de nós mesmos. Continuamos nos considerando justos e
solidários, mesmo quando nossas escolhas contradizem os valores que
proclamamos.
Não
precisamos negar inteiramente a realidade. Basta selecionar a parte que nos
convém.
Enxergar
de verdade pode nos obrigar a reconhecer que participamos de situações que
condenamos, que nos beneficiamos de desigualdades ou que nossa omissão
contribuiu para prolongar o sofrimento de alguém.
O
conhecimento deixa, então, de ser uma informação armazenada na mente e se
transforma numa exigência dirigida à consciência.
Quem
vê não pode desfazer o que viu. Pode, contudo, escolher o que fará com aquilo
que agora sabe.
O preço de continuar como estamos
A
mão fechada e os olhos cegos se encontram numa região delicada da existência: o
espaço entre saber e agir.
Reconhecemos
que uma relação nos destrói, mas continuamos nela. Percebemos que um
comportamento prejudica alguém, mas o repetimos. Descobrimos contradições em
nossas convicções, mas resistimos a revê-las porque elas se tornaram parte de
nossa identidade.
Saber
não significa, necessariamente, estar preparado para mudar.
A
razão pode identificar o absurdo enquanto os afetos permanecem ligados a ele. A
consciência pode denunciar uma injustiça enquanto o interesse recomenda sua
continuidade.
O
ser humano não abandona automaticamente aquilo que reconhece como prejudicial.
Somos feitos também de lembranças, necessidades, vínculos e medos. Por isso, a
transformação exige mais do que uma decisão pronunciada num momento de
sofrimento. Exige compreender o que nos prende, encontrar apoio e construir
outras maneiras de viver.
Há
quem precise de tempo para abrir a mão. Há quem necessite de ajuda para
conseguir olhar.
Não
devemos transformar essas dificuldades em acusações contra quem sofre. A
responsabilidade não consiste em atribuir ao ferido a culpa pela ferida, mas em
reconhecer a possibilidade de participar da própria transformação, respeitando
os limites de cada pessoa.
Um
vício ou uma dependência não desaparece necessariamente por força de vontade.
Há situações que exigem tratamento, acompanhamento profissional e uma rede de
apoio. Pedir ajuda pode ser o primeiro gesto de abertura.
O
problema não está em ainda não conseguir soltar. Está em transformar a
dificuldade presente numa condenação definitiva de amanhã.
A
existência permanece aberta enquanto houver a possibilidade de dar outro
sentido ao que vivemos.
A liberdade começa quando examinamos
nossas escolhas
Existe
uma diferença entre compreender por que somos como somos e utilizar essa
compreensão para justificar a permanência no mesmo lugar.
Nossa
história influencia profundamente nossas reações. As perdas, as rejeições, os
medos e as condições sociais participam da maneira como nos relacionamos com o
mundo. Mas compreender as origens de um comportamento não significa estar
condenado a repeti-lo.
Podemos
ter aprendido a desconfiar porque fomos traídos, sem transformar todas as
relações em campos de batalha. Podemos ter sido humilhados sem fazer da
humilhação o nosso método de convivência. Podemos sofrer injustiças sem adotar
a vingança como princípio de vida.
O
passado participa de quem somos, mas não precisa receber a autoridade absoluta
de decidir quem seremos.
Essa
possibilidade não elimina as dificuldades nem garante resultados imediatos.
Abre, porém, um espaço entre aquilo que nos aconteceu e aquilo que faremos a
partir disso.
Nesse
espaço, a liberdade começa a adquirir sentido.
Não
somos livres porque deixamos de carregar marcas. Somos mais livres quando elas
deixam de determinar, sozinhas, o rumo de nossos passos.
O
mesmo princípio vale para a vida coletiva.
Uma
sociedade não se transforma apenas porque reconhece seus problemas. É
necessário que seus integrantes deixem de proteger os interesses e privilégios
que alimentam aquilo que dizem combater.
Não
basta condenar a violência e aplaudi-la quando atinge nossos adversários. Não
basta defender a justiça e aceitar sua ausência quando a vítima não pertence ao
nosso círculo. Não basta proclamar a dignidade humana enquanto tratamos
determinadas pessoas como se valessem menos do que outras.
A
consciência social começa quando deixamos de considerar a injustiça um problema
exclusivo de quem a sofre.
Nem
sempre somos responsáveis pela origem de uma situação, mas podemos nos tornar
responsáveis pela maneira como reagimos a ela. Em certas circunstâncias, o
silêncio é prudência; em outras, protege aquilo que deveria ser questionado.
Discernir
essa diferença também faz parte do trabalho da consciência.
A coragem de perder o que nos aprisiona
Talvez
um dos maiores obstáculos à liberdade seja o medo de perder aquilo que
aprendemos a chamar de nosso.
Há
quem preserve uma mágoa porque acredita que perdoar significaria negar o
sofrimento vivido. Outros mantêm uma dependência porque confundem a ausência de
alguém com a ausência de valor pessoal. Há também quem defenda uma ideia mesmo
depois de reconhecer suas contradições, porque mudar de opinião parece uma
derrota.
A
transformação começa quando perguntamos o que realmente estamos tentando
preservar.
Estamos
protegendo nossa dignidade ou alimentando nosso orgulho? Defendemos um
princípio ou evitamos reconhecer um erro? Sustentamos uma relação de afeto ou
tentamos escapar do medo da solidão?
Essas
perguntas não oferecem respostas automáticas. Sua importância está em
interromper a repetição de escolhas que já não examinamos.
A
maturidade talvez comece quando deixamos de perguntar apenas quem nos feriu e
passamos a investigar o que estamos fazendo com a ferida.
Também
precisamos reconhecer que nem todas as prisões podem ser rompidas por decisões
individuais. Há relações violentas, estruturas sociais injustas e
circunstâncias que limitam concretamente a liberdade. Nessas situações,
transformar a realidade pode exigir proteção, apoio e ação coletiva.
A
liberdade não possui um único gesto. Às vezes, significa abandonar um
comportamento destrutivo; em outras, procurar ajuda, afastar-se de uma relação
perigosa, rever uma convicção ou unir-se a outras pessoas para modificar as
condições que produzem sofrimento.
O
essencial é não fazer daquilo que nos aprisiona a medida definitiva de nossa
existência.
O que fazemos com aquilo que vemos?
A
mulher de Saramago continua enxergando quando os demais perderam a visão. Seu
olhar permite reconhecer o que acontece, mas não a poupa do peso de
testemunhar.
Essa
imagem nos coloca diante de uma pergunta incômoda: o que fazemos quando já não
podemos alegar desconhecimento?
Olhar
é receber uma imagem. Enxergar é permitir que ela questione nossas certezas.
Olhar
é perceber alguém caído. Enxergar é reconhecer sua humanidade, mesmo quando
socorrê-lo exige interromper nossa pressa.
Olhar
é ser testemunha de uma injustiça. Enxergar é compreender que nossa
tranquilidade talvez esteja sendo preservada à custa do sofrimento alheio.
A
visão que não alcança a consciência pode produzir espectadores bem informados e
cidadãos indiferentes.
Algo
semelhante acontece com a espiritualidade quando a oração se transforma numa
espera pela solução que desejamos, mas não nos dispomos a construir.
A
fé não precisa colocar a ação humana em oposição à confiança em Deus. Pode
despertar a coragem necessária para reconhecer limites, aceitar ajuda,
abandonar comportamentos destrutivos e assumir responsabilidades.
Pedir
que Deus retire uma dor é uma expressão legítima de esperança. Mas a resposta
não precisa assumir a forma de uma intervenção que nos dispense de participar
da mudança.
Às
vezes, a oração nos ajuda a encontrar forças para abrir a mão. Outras vezes,
permite admitir que não conseguimos abri-la sozinhos.
O
sagrado não precisa substituir nossa responsabilidade. Pode aprofundá-la.
A existência entre a mão e os olhos
A
vida nos coloca repetidamente diante de duas tarefas: aprender a soltar aquilo
que nos fere e enxergar aquilo que nossa conveniência procura esconder.
Uma
tarefa pertence à intimidade de cada pessoa. A outra alcança o mundo que
compartilhamos. Ambas, porém, exigem que examinemos nossa maneira de estar na
existência.
A
dor não produz automaticamente sabedoria, assim como o conhecimento não produz
automaticamente justiça. Entre a experiência e a consciência existe um trabalho
a realizar.
Precisamos
evitar que nossas feridas se transformem em instrumentos de ferir e que nossas
certezas se tornem vendas. A dignidade humana não depende da concordância, da
utilidade ou do pertencimento de alguém ao nosso grupo.
A
mão que se abre não apaga o passado. Os olhos que enxergam não corrigem,
sozinhos, o mundo. Mas ambos podem inaugurar uma mudança.
Não
precisamos resolver toda a existência numa única decisão. Precisamos reconhecer
os momentos em que continuar como estamos prolonga o próprio sofrimento ou
contribui para a injustiça.
Há
coisas que precisam ser abandonadas. Há verdades que exigem reconhecimento. Há
dores que reclamam cuidado e injustiças que exigem nossa presença.
No
fim, talvez a pergunta mais importante não seja por que Deus ainda não retirou
a faca, nem por que o mundo insiste em permanecer cego.
Talvez
seja outra.
O que ainda seguramos, embora nos machuque? O que já conseguimos
enxergar, mas continuamos fingindo não ver?
Entre
essas duas perguntas, a existência nos convoca a um trabalho que ninguém pode
realizar inteiramente em nosso lugar.
Abrir
a mão para deixar de prolongar o próprio ferimento.
Abrir
os olhos para não continuar participando da cegueira coletiva.
A
liberdade não começa quando desaparecem todas as correntes ou quando todas as
verdades se tornam confortáveis. Começa quando encontramos coragem para deixar
de chamar de destino aquilo que ainda podemos transformar.
Porque há feridas que precisam de
cuidado, prisões que exigem luta e cegueiras que só começam a desaparecer
quando aceitamos a responsabilidade de enxergar.

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