Aprender a Viver


O DESEJO MAIOR E A VIA WEB

Entre aquilo que sonhamos alcançar e a coragem de abrir caminhos onde ainda não existem estradas

Por Hiran de Melo

RESUMO (ABSTRACT)

O presente ensaio reflete sobre a relação entre desejo, iniciativa, transformação existencial e construção de oportunidades, tomando como referência a trajetória da jovem nigeriana Rachel Ojuru, que, diante da rejeição no mundo da moda, criou, com a colaboração de uma amiga, sua própria passarela numa rua de terra batida, alcançando posteriormente reconhecimento internacional. A partir dessa experiência, o texto distingue os desejos passageiros daqueles que se tornam direções existenciais, capazes de orientar escolhas e impulsionar transformações. A Via Web é apresentada como metáfora dos caminhos construídos por meio das conexões, da colaboração e da circulação de iniciativas, destacando que a tecnologia amplia possibilidades, mas não substitui o trabalho, o compromisso e a ação humana. O ensaio também problematiza a desigualdade das condições de partida, reconhecendo que a responsabilidade individual não elimina a responsabilidade coletiva pela construção de oportunidades mais justas. Por fim, enfatiza a importância da gratidão e do reconhecimento daqueles que participam de nossas conquistas, defendendo que o verdadeiro sucesso não se mede apenas pelo lugar alcançado, mas também pela capacidade de preservar os vínculos humanos e a consciência de nossa interdependência ao longo da caminhada.

Palavras-chave: Desejo maior; Existência; Via Web; Transformação; Protagonismo; Colaboração; Desigualdade social; Gratidão; Interdependência humana.

Há momentos em que a vida nos coloca diante de uma escolha silenciosa: aceitar o lugar que os outros determinaram para nós ou começar a construir um caminho em direção àquilo que desejamos ser.

Nem sempre essa escolha acontece em condições favoráveis. Às vezes, faltam recursos, oportunidades, reconhecimento e até mesmo alguém que acredite naquilo que carregamos dentro de nós. O mundo costuma distribuir desigualmente as possibilidades, mas também nos surpreende quando alguém encontra uma maneira de começar apesar das limitações.

A história da jovem nigeriana Rachel Ojuru nos oferece uma reflexão interessante sobre essa condição humana.

Disseram-lhe que jamais seria modelo. Não tinha o perfil esperado, os contatos necessários nem os recursos que costumam abrir as portas do mundo da moda. Mas havia nela alguma coisa que não cabia na avaliação daquele olheiro: o desejo de desfilar.

E, quando a porta se fechou, ela não ficou diante dela esperando que alguém mudasse de opinião.

Juntou-se à amiga Deby, que sabia costurar e transformar tecidos simples em roupas. Reuniram retalhos, adaptaram peças baratas e fizeram da rua de terra batida uma passarela. Entre barracas de frutas, poças de lama e o movimento cotidiano da periferia de Lagos, Rachel começou a realizar aquilo que lhe haviam dito ser impossível.

Não esperou possuir as condições ideais para começar. Criou, com aquilo que tinha, uma possibilidade de existir no mundo que desejava alcançar.

O vídeo daquele desfile improvisado alcançou milhões de pessoas. Chegou aos olhos de representantes da Chanel, e a jovem que desfilava na poeira de uma rua nigeriana foi convidada a cruzar uma das passarelas mais conhecidas do universo da moda, em Paris.

A história merece ser observada para além do sucesso que alcançou.

O que aconteceu ali não foi simplesmente uma jovem que conseguiu realizar o sonho de ser modelo. Foi também uma demonstração de que, algumas vezes, o caminho para chegar a determinado lugar precisa começar pela invenção de uma estrada que ainda não existe.

E aqui encontramos uma questão existencial importante: o que fazemos quando o mundo não oferece a passagem para o lugar onde desejamos chegar?

O desejo maior e a direção da existência

Existe uma diferença entre desejar alguma coisa e reconhecer nela uma direção para a própria existência.

Desejos aparecem e desaparecem. Alguns nascem de necessidades passageiras; outros são despertados pela comparação com aquilo que os outros possuem. Há desejos que procuram satisfazer o ego, conquistar reconhecimento ou preencher vazios que sequer compreendemos.

Mas existem desejos que nos convocam a uma transformação.

São aqueles que, quando levados a sério, modificam a maneira como olhamos para nós mesmos, organizamos nossas escolhas e enfrentamos as circunstâncias.

Podemos chamá-los de desejos maiores.

O desejo maior não é necessariamente aquele que promete riqueza, fama ou reconhecimento. É aquele que nos oferece uma razão suficientemente significativa para continuar caminhando, mesmo quando os resultados ainda não aparecem.

Ele funciona como uma direção existencial.

Não determina antecipadamente onde chegaremos, mas ajuda a compreender por que vale a pena sair do lugar em que estamos.

Rachel desejava ser modelo. Mas, para além da profissão, havia uma afirmação mais profunda: ela não aceitava que a opinião de outra pessoa tivesse autoridade definitiva para estabelecer os limites de sua existência.

O julgamento recebido era uma avaliação sobre suas possibilidades naquele momento. Ela, entretanto, não precisava transformá-lo numa sentença sobre o restante de sua vida.

Essa distinção é fundamental.

Não somos obrigados a aceitar como identidade aquilo que alguém reconheceu em nós numa circunstância particular. Tampouco precisamos fazer da rejeição uma verdade permanente.

O ser humano não está definitivamente concluído. Existe enquanto possibilidade, escolha e transformação.

Talvez seja justamente isso que nos permita recomeçar: compreender que aquilo que somos hoje não esgota aquilo que ainda podemos nos tornar.

A Via Web: construir a passagem enquanto caminhamos

A expressão Via Web pode ser compreendida, nesta reflexão, como uma metáfora para os caminhos que se formam por meio das conexões, das relações e das possibilidades que surgem quando nos colocamos em movimento.

Não se trata de esperar que alguém nos entregue uma estrada pronta. Trata-se de compreender que, na existência contemporânea, muitas oportunidades nascem de encontros, iniciativas, compartilhamentos e redes de colaboração.

A história de Rachel revela essa dimensão.

Ela não caminhou sozinha.

Havia Deby, a amiga que costurava, inventava roupas e acreditava na possibilidade daquele projeto. Uma oferecia a disposição de desfilar; a outra, a capacidade de transformar retalhos em vestimentas. O que isoladamente poderia parecer insuficiente tornou-se uma experiência capaz de alcançar o mundo.

Aqui existe uma lição que merece atenção: a realização de um desejo maior não depende exclusivamente da força individual, mas também da capacidade de reconhecer, estabelecer e cultivar relações que ampliem nossas possibilidades.

A Via Web não é apenas uma estrada tecnológica. É também uma maneira de compreender a existência em rede.

Vivemos num mundo em que uma ideia nascida num lugar aparentemente esquecido pode alcançar pessoas em continentes diferentes. Uma produção artesanal pode encontrar um mercado internacional. Uma experiência local pode provocar uma conversa mundial.

Entretanto, seria um equívoco imaginar que a conexão, por si só, realiza sonhos.

A internet pode ampliar a visibilidade, mas não substitui o trabalho. Pode aproximar pessoas, mas não garante compromisso. Pode oferecer oportunidades, mas não determina o que faremos com elas.

A rede amplia o alcance daquilo que colocamos em circulação. Mas precisamos ter alguma coisa a oferecer.

Rachel não viralizou simplesmente porque estava numa rua de terra batida. Havia uma iniciativa, uma criação, uma parceria e uma disposição de transformar uma limitação em possibilidade.

A oportunidade encontrou alguém que já estava fazendo alguma coisa.

E talvez essa seja uma das grandes lições do nosso tempo: não basta estar conectado; precisamos estar implicados naquilo que desejamos construir.

O primeiro passo não exige a estrada inteira

Existe uma armadilha bastante comum na experiência humana: esperar que todas as condições estejam reunidas antes de começar.

Esperamos ter dinheiro, conhecimento, segurança, reconhecimento, apoio e garantias. Queremos enxergar o percurso inteiro antes de dar o primeiro passo.

Mas a vida raramente oferece esse tipo de garantia.

Muitas vezes, o caminho só se revela depois que começamos a caminhar.

Isso não significa ignorar dificuldades, desprezar o planejamento ou acreditar que a vontade seja suficiente para superar qualquer obstáculo. Significa reconhecer que a preparação também acontece durante a travessia.

Há conhecimentos que só adquirimos fazendo. Há capacidades que descobrimos quando somos confrontados com uma dificuldade. Há pessoas que só encontramos porque decidimos sair do lugar em que estávamos.

O começo, portanto, não precisa ser grandioso.

Pode ser uma conversa, uma tentativa, um estudo, uma pequena experiência, uma parceria ou uma iniciativa aparentemente insignificante.

O importante é que exista correspondência entre o desejo que anunciamos e as atitudes que assumimos.

Não adianta falar continuamente sobre o lugar onde desejamos chegar enquanto permanecemos absolutamente imóveis diante das possibilidades que já estão ao nosso alcance.

O desejo maior precisa deixar de ser apenas uma ideia que nos emociona para se transformar numa escolha que orienta nossas ações.

É nesse ponto que a existência deixa de ser somente expectativa e passa a ser construção.

A injustiça do ponto de partida

É necessário, entretanto, fazer uma distinção.

A história de Rachel não deve ser utilizada para responsabilizar exclusivamente os indivíduos pelo sucesso ou pelo fracasso de suas trajetórias.

As oportunidades não são distribuídas igualmente. Existem pessoas que começam com patrimônio, formação, proteção familiar e relações influentes. Outras precisam enfrentar a pobreza, a discriminação, a ausência de serviços básicos e inúmeras barreiras sociais.

Seria injusto transformar uma história extraordinária de superação numa regra para julgar quem não conseguiu superar as próprias dificuldades.

Nem todos dispõem dos mesmos recursos. Nem todos encontram uma Deby pelo caminho. Nem todos recebem a atenção de uma grande empresa internacional.

A responsabilidade individual existe, mas não elimina a responsabilidade coletiva de construir uma sociedade mais justa.

Precisamos reconhecer as duas dimensões.

Cada pessoa tem uma parcela de responsabilidade sobre as escolhas que pode realizar, mas a sociedade também tem o dever de ampliar as condições para que essas escolhas sejam possíveis.

A esperança não pode servir de justificativa para a indiferença diante das desigualdades.

O verdadeiro sentido de uma história de superação talvez não esteja em dizer aos outros que basta querer. Está em perceber quantas capacidades humanas permanecem invisíveis porque ainda não receberam oportunidades para se manifestar.

O talento de Rachel existia antes de Paris. O que faltava não era necessariamente talento. Faltavam condições, reconhecimento e uma oportunidade de encontro entre sua capacidade e o mundo que poderia acolhê-la.

Não esquecer quem caminhou conosco

Existe, na história de Rachel, um detalhe que considero particularmente significativo.

Depois de alcançar reconhecimento internacional, ela fez questão de mencionar a amiga que costurava os retalhos e acreditava no projeto quando ainda não havia qualquer garantia de sucesso.

Esse gesto nos conduz a outra dimensão do desejo maior: a responsabilidade afetiva diante daqueles que participaram de nossa caminhada.

O sucesso pode produzir uma ilusão perigosa: a de que chegamos sozinhos.

Quando conquistamos reconhecimento, tendemos a organizar retrospectivamente nossa história como se tudo tivesse dependido exclusivamente de nossa capacidade, determinação e inteligência.

Esquecemos as mãos que nos ajudaram, as palavras que nos sustentaram, os pequenos gestos que nos impediram de desistir.

Esquecemos, sobretudo, aqueles que permaneceram por perto quando ainda não tínhamos nada que justificasse sua permanência.

A gratidão não consiste em viver preso ao passado, nem em transformar ajuda recebida numa dívida permanente.

Consiste em reconhecer que nossa existência é também resultado dos encontros que nos constituíram.

Ninguém se faz inteiramente sozinho.

A autonomia não elimina a interdependência. Ao contrário, amadurece quando compreendemos que podemos assumir a direção de nossa vida sem negar a importância daqueles que caminharam conosco.

Talvez a verdadeira grandeza de uma conquista não esteja apenas no lugar alcançado, mas na maneira como tratamos as pessoas depois que chegamos lá.

Não podemos permitir que a chegada nos faça esquecer a estrada, nem que a conquista nos torne indiferentes àqueles que continuam caminhando na poeira.

O desejo que nos mantém em movimento

Há uma pergunta que gostaria de deixar como provocação: qual é o desejo maior que ainda permanece esperando uma atitude nossa?

Talvez seja um projeto profissional. Talvez seja voltar a estudar, escrever um livro, desenvolver uma habilidade, reconstruir uma relação, realizar uma viagem ou simplesmente encontrar uma maneira mais verdadeira de viver.

Pode ser algo que outras pessoas consideram impossível. Pode ser uma vontade antiga, tantas vezes adiada, que já começa a parecer distante demais.

Mas existe uma diferença entre reconhecer as dificuldades e entregar a elas o poder de decidir toda a nossa história.

Precisamos aprender a olhar para aquilo que desejamos sem perder o contato com a realidade. Reconhecer os obstáculos sem transformá-los em destino. Procurar ajuda sem abrir mão da autonomia. Construir relações sem transformar pessoas em instrumentos de nossas ambições.

E, principalmente, começar.

Talvez não possamos escolher todas as circunstâncias em que a vida nos colocou. Mas podemos procurar compreender quais possibilidades ainda existem dentro delas.

A Via Web, nessa perspectiva, é a estrada que construímos quando colocamos nossos desejos em contato com nossas capacidades, nossas iniciativas e as pessoas que encontramos pelo caminho.

Não sabemos quem verá nosso trabalho. Não sabemos quando surgirá uma oportunidade. Não temos como garantir que o resultado corresponderá às nossas expectativas.

Mas podemos fazer alguma coisa.

Podemos começar com os recursos disponíveis, aprender durante o percurso, reconhecer quem nos acompanha e permanecer abertos aos encontros que a caminhada proporciona.

Rachel começou numa rua de terra batida. Não tinha uma passarela, mas tinha o desejo de desfilar. Não tinha roupas de uma grande grife, mas tinha uma amiga que sabia costurar. Não tinha acesso ao mundo da moda, mas encontrou uma maneira de mostrar ao mundo aquilo que estava criando.

Paris veio depois.

Talvez essa seja a imagem que precisamos guardar: a passarela não foi o começo da história. Foi uma consequência de algo que já estava acontecendo muito antes, quando duas jovens decidiram fazer alguma coisa com aquilo que tinham.

Não espere que o mundo reconheça seu desejo para começar a levá-lo a sério. Não espere que a estrada apareça inteira para dar o primeiro passo. E, quando a vida lhe permitir chegar a lugares que antes pareciam impossíveis, não esqueça aqueles que caminharam ao seu lado quando o horizonte ainda era apenas uma esperança.

Porque o desejo maior não serve apenas para nos levar a algum lugar.

Serve também para nos transformar durante a caminhada e nos ensinar a reconhecer, na chegada, quem fomos, quem nos ajudou a ser e quem ainda precisamos aprender a ser.

Afinal, talvez o verdadeiro sucesso não consista apenas em conseguir desfilar em Paris.

Consista em não perder a capacidade de reconhecer a amiga que, um dia, costurou nossos primeiros retalhos.

Assista o vídeo:

https://www.instagram.com/reel/DfS_HENp75H/?dlrf=OG1xc3ltbjRqZmJp


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