Aprender a Viver
O Que a
Areia Esconde
Uma manhã
em João Pessoa, entre a memória, as imagens e a descoberta da vida
Por Hiran de Melo
Resumo
(Abstract)
O
ensaio O Que a Areia Esconde apresenta uma reflexão existencial sobre a
memória, a finitude, a experiência e os limites da percepção humana, a partir
de observações realizadas durante uma manhã em João Pessoa. Uma visita ao
cemitério, motivada por uma necessidade burocrática relacionada ao túmulo da
companheira falecida, transforma-se em oportunidade de reencontro com as
lembranças e de descoberta de novos sentidos para a existência. Na praia, cenas
cotidianas — pessoas concentradas na produção de imagens, uma criança que
supera a resistência inicial ao contato com o mar e pombos que procuram
alimento sob a areia — suscitam questionamentos sobre a busca por
reconhecimento, o aprendizado pela experiência e a insuficiência das primeiras
interpretações. Sem condenar os recursos tecnológicos nem pretender conhecer as
motivações alheias, o autor contrapõe a representação da vida à possibilidade
de vivê-la plenamente. A observação dos pombos, em especial, simboliza a
necessidade de ultrapassar as aparências e reconhecer que a realidade não se
esgota naquilo que se apresenta à superfície. O ensaio conclui que viver também
é aprender a olhar com mais atenção, questionar certezas e admitir os limites
do próprio entendimento, pois há dimensões da existência que somente se revelam
a quem permanece disposto a descobrir.
Palavras-chave:
Existência; memória; finitude; percepção; experiência; aparência e realidade;
contemplação; autoconhecimento.
Fazia
um tempão que eu não vinha a João Pessoa, capital da Paraíba.
Dessa
vez, vim por uma circunstância muito particular. Precisava ir ao Cemitério da
Boa Sentença, onde tenho um túmulo no qual repousa o corpo da minha
companheira, mãe de duas das minhas filhas amadas. Ali também estão sepultados
outros corpos que autorizei que fossem acolhidos naquele mesmo espaço.
O
túmulo tem duas gavetas. Na superior, os corpos permanecem por determinado
tempo, até que os ossos sejam transferidos para o ossário existente no próprio
túmulo. Ali já havia três conjuntos de ossos nessas condições. Na gaveta mais
interna, porém, permanecia intocado o corpo da minha companheira.
Não
teria sequer localizado o túmulo se não tivesse acompanhado pessoalmente os
procedimentos de construção, e nesta oportunidade guiado por uma pessoa amiga.
Minha ida, entretanto, tinha uma finalidade prática: atualizar o registro de
posse. Resolvi tudo da maneira mais simples que imaginei. E tudo deu certo.
Mas
há ocasiões em que uma viagem começa por uma necessidade e acaba nos oferecendo
outras razões para estar no mundo.
Depois
do cemitério, fui à praia do Bessa.
Escolhi
o Restaurante Praiano, um estabelecimento cujos preços, a meu ver, restringem
bastante o acesso. É preciso dispor de um poder aquisitivo elevado para
frequentá-lo. Um lugar à beira-mar, mas nem por isso ao alcance de todos.
Foi
ali que começaram minhas observações.
A
primeira coisa que me chamou a atenção foram os pombos.
Machos
e fêmeas, ágeis, inquietos, movimentavam-se pela areia. A princípio, imaginei
que procurassem restos de comida. Impressionava-me a velocidade com que
distinguiam o que lhes servia daquilo que era apenas areia. Bicavam aqui,
avançavam acolá, examinavam o chão com uma destreza admirável.
O
mais curioso era a confiança com que circulavam entre as pessoas. Raramente se
assustavam. Apenas a aproximação inesperada de alguma criança os fazia levantar
voo.
Os
humanos estavam ali, tão próximos, e os pombos pareciam não lhes atribuir
importância especial. Tinham algo a fazer. E faziam.
Mais
tarde, em outra praia, descobriria que minha primeira interpretação estava
incompleta.
Mas
isso fica para depois.
O
segundo acontecimento me impressionou ainda mais.
Apesar
da imensidão do mar diante de nós, poucas pessoas pareciam interessadas em
contemplá-lo. A maioria estava ocupada com o celular, os olhos fixos na pequena
tela, os ouvidos protegidos por fones.
O
oceano se estendia diante de todos, mas a atenção permanecia concentrada em
outro lugar.
E
eu? Por que não estava fazendo o mesmo?
Meu
celular havia descarregado. Coloquei-o para carregar e, por uma dessas ironias
da vida moderna, fiquei temporariamente livre dele.
Foi
assim que comecei a observar o que acontecia ao meu redor.
Havia
uma jovem, talvez com dezesseis ou dezessete anos. De pele bastante escura,
sentada inicialmente a uma mesa, ela se levantava de tempos em tempos e
caminhava até uma plataforma que avançava em direção ao mar.
Ali,
fazia poses, mudava a expressão do rosto, procurava ângulos. Fotografava-se
repetidamente. Devia produzir centenas de imagens. Depois, examinava o
resultado, escolhia algumas e, provavelmente, publicava-as no Instagram.
Fiquei
pensando no que a levara até ali.
Não
parecia estar diante do mar para contemplá-lo. Tampouco parecia interessada na
vastidão do oceano, no movimento das ondas ou na conversa silenciosa entre a
água e o horizonte.
O
mar estava servindo de cenário.
O
espetáculo era ela mesma.
Talvez
eu estivesse interpretando aquela jovem de maneira apressada. Não conhecia seus
pensamentos nem suas razões. Mas a cena me levou a refletir sobre uma
característica do nosso tempo: a necessidade de transformar a experiência em
imagem, como se viver alguma coisa já não bastasse; fosse necessário também
mostrá-la.
A
praia deixa de ser apenas um lugar para estar e se transforma em cenário para
uma representação de si.
A
fotografia já não guarda somente a lembrança de um momento. Pode tornar-se uma
oferta dirigida aos outros, uma maneira de dizer: estou aqui, sou assim, olhem
para mim.
E
as curtidas, quando chegam, talvez ofereçam a confirmação de que aquela
presença foi percebida.
Não
sei se era isso que movia a jovem. Mas sei que nossa época criou um espaço no
qual a imagem pode adquirir valor próprio. Há quem encontre reconhecimento,
trabalho e sustento na capacidade de produzir imagens e alimentar continuamente
a curiosidade de seus seguidores.
Não
se trata simplesmente de condenar o celular ou as redes sociais. Também seria
precipitado imaginar que todos os que fotografam deixaram de contemplar.
A
questão é outra: quando a necessidade de mostrar se torna maior do que a
possibilidade de sentir, corremos o risco de viver para registrar a vida, em
vez de permitir que a vida nos aconteça.
O
mar continua diante de nós. Mas, às vezes, parece que precisamos vê-lo através
de uma tela para acreditar que estivemos diante dele.
Foi
então que outra cena me chamou a atenção.
Um
casal chegou acompanhado de uma criança. A mãe resolveu levá-la para conhecer o
mar. Havia uma plataforma entre o restaurante e a água, embora o
estabelecimento tivesse aquele jeito de restaurante pé na areia.
A
criança resistia. Não parecia disposta a entrar na água.
A
mãe insistiu por algum tempo, mas logo voltou com ela.
O
que aconteceu em seguida foi encantador.
Agora,
era a criança que não queria voltar.
Alguma
coisa havia mudado. O contato com o mar despertara nela um desejo que antes não
existia, ou que ainda não havia encontrado ocasião para se manifestar. A água,
que de início parecia causar receio, tornara-se uma descoberta.
A
mãe tentou trazê-la de volta. A criança resistiu.
Quando
já não conseguiu conduzi-la sozinha, o pai se aproximou, tomou a criança e
voltou com ela para o mar.
Era
ali que ela queria estar.
Fiquei
encantado.
Pensei
em como a experiência transforma nossos desejos. Há coisas que recusamos porque
ainda não as conhecemos. Há medos que só perdem a força quando nos aproximamos
daquilo que nos assusta. E há descobertas que ninguém pode fazer em nosso
lugar.
A
criança não precisava de uma explicação sobre o mar. Precisava experimentá-lo.
A
mãe abriu o caminho. O pai acompanhou o movimento. E a criança encontrou, no
contato com a água, uma vontade que não poderia ter sido simplesmente ensinada.
Talvez
educar também seja isso: conduzir alguém até a possibilidade de uma descoberta
e, depois, reconhecer o momento em que já não somos nós que devemos escolher o
caminho.
A
criança queria o mar. E o pai compreendeu.
Depois
dessas observações, considerei encerrada minha permanência no Restaurante
Praiano. Pedi a conta, paguei, entrei no carro e mudei de praia.
Agora
estou em Intermares.
Foi
aqui que os pombos me ensinaram outra coisa.
Observando-os
com mais atenção, percebi que talvez minha primeira interpretação estivesse
errada. Eles não pareciam procurar simplesmente restos de comida espalhados
pela superfície. Enfiavam o bico na areia, afastavam os grãos, cavavam
ligeiramente e recolhiam alguma coisa escondida ali.
Talvez
fossem pequenos organismos, talvez alimento deixado sob a areia. Não posso
afirmar exatamente o que encontravam.
Mas
a cena me fez perceber que eu havia olhado sem realmente compreender.
O
que parecia estar diante dos meus olhos não era tudo o que existia.
Os
pombos sabiam procurar. Eu é que precisava aprender a observar.
E
fiquei pensando em quantas vezes fazemos o mesmo com a vida. Olhamos uma pessoa
e acreditamos conhecê-la. Vemos uma atitude e imaginamos compreender suas
razões. Encontramos uma aparência e a confundimos com a realidade.
Às
vezes, basta mudar de posição, permanecer um pouco mais ou prestar atenção ao
que antes nos escapava para descobrir que nossa primeira interpretação era
insuficiente.
Naquela
manhã, fui a João Pessoa para resolver uma questão burocrática relacionada a um
túmulo. Visitei um lugar onde a memória dos que partiram permanece entre os
vivos. Depois, diante do mar, encontrei pessoas ocupadas em produzir imagens,
uma criança descobrindo a água e pombos procurando alimento sob a areia.
Quatro
experiências diferentes, reunidas por uma mesma pergunta: o que realmente vemos
quando olhamos?
No
cemitério, a matéria nos recordava a finitude, enquanto a memória mantinha viva
a presença de quem amamos.
No
restaurante, a imagem disputava com a experiência o lugar de protagonista.
Na
praia, a criança descobria que o mundo pode oferecer mais do que nossos receios
antecipam.
E
os pombos, por fim, mostravam que o alimento nem sempre está na superfície.
Talvez
a existência seja assim. Passamos boa parte do tempo procurando respostas onde
aprendemos a procurá-las, olhando para aquilo que todos olham, repetindo
interpretações que nos parecem evidentes.
Mas
há um mundo escondido sob a areia.
Não
necessariamente um segredo extraordinário. Às vezes, apenas aquilo que não
conseguimos enxergar porque olhamos depressa demais.
Naquela
manhã, meu celular descarregado me deixou sem tela por algum tempo. E, sem
planejar, comecei a encontrar outras coisas para ver.
O
mar estava ali desde o início.
A
criança precisou entrar na água para descobri-lo.
Os
pombos precisaram cavar para encontrar alimento.
E
eu precisei permanecer olhando para compreender que ainda não havia visto tudo.
Talvez
seja essa uma das tarefas mais difíceis da existência: reconhecer que o mundo
não se esgota naquilo que já conseguimos compreender.
Há
sempre alguma coisa sob a areia.
E, às vezes, é preciso apenas demorar um pouco mais o olhar.

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