A Sombra dos Messias
A Febre do Espírito e a Arqueologia da
Redenção
Por Hiran de Melo
Muitas
vezes, a narrativa institucional apresenta-nos o Nazareno como um acontecimento
suspenso, uma anomalia de luz num deserto de silêncio. Contudo, ao escutarmos
as pedras e os pergaminhos esquecidos, descobrimos uma Judeia que não conhecia
a paz: um "matadouro sob o céu", onde o ar estava saturado pela
respiração ofegante de profetas, magos e rebeldes que clamavam para si o peso
da Eleição. Jesus não surgiu num vácuo; ele caminhou sobre um solo em chamas,
numa terra onde o messianismo era uma epidemia do espírito, uma resposta
visceral à trituração da esperança sob o ferro de Roma.
O Messias: Do Guerreiro ao Arquétipo
Político
Para
penetrar neste mistério, urge despir o Messias das suas vestes angelicais de
seda moderna. No alvorecer da nossa era, Mashiah — o Ungido — não
evocava uma redenção etérea, mas o cheiro da terra e do sangue. Esperava-se um
novo David: um monarca da matéria, um general capaz de restaurar a soberania de
Israel. Homens como Simão de Pereia, o escravo que ousou a coroa, e Átrongo, o
pastor de força telúrica, foram os precursores deste clamor. Pagaram com a
própria vida a audácia de confundir o Reino com um território, deixando os seus
corpos como avisos nas estradas da Galileia.
A Teologia da Espada e o Intelecto da
Revolta
Judas,
o Galileu, não ofereceu apenas uma espada, mas uma ideia: "não temos outro
senhor senão o Único". Ao fundar a Quarta Filosofia, ele transformou o
pagamento do tributo numa traição cósmica. Jesus respirou este oxigénio de
resistência. O vírus da revolução habitava o seu círculo íntimo — entre zelotes
e homens de punhal escondido. A tragédia do Gólgota talvez resida nisto: a
recusa do Mestre em ser o Messias que a sede de vingança exigia. Ele não veio
para queimar palácios, mas para incendiar o interior dos homens.
O Espelho dos Rivais: Apolónio e a
Sedução do Poder
O
cenário estava povoado de espelhos. Apolónio de Tiana, o pitagórico de linho
branco, curava e ressuscitava com a sofisticação de um filósofo que falava aos
imperadores. Se ele oferecia a disciplina para a excelência do "eu",
Jesus oferecia o abraço ao "nós" ferido. Simultaneamente, Simão Mago,
o samaritano, propunha uma gnose onde a matéria era a prisão de um deus menor.
Ao elevar Helena, a prostituta de Tiro, ao estatuto de Pensamento Divino, Simão
tocava numa verdade profunda — a redenção do feminino caído —, mas perdia-se na
vertigem do próprio poder.
Shimon Bar Kokhba: A Ilusão do Messias
que "Funciona"
A
prova final desta febre foi Shimon Bar Kokhba, o "Filho da Estrela".
Ele foi o salvador que a história compreende: o que vence batalhas, que cunha
moedas, que reconstrói muros. Mas o seu sucesso foi o prelúdio de um deserto
ainda maior. Ele demonstrou que um messianismo que "funciona"
exteriormente acaba invariavelmente em ruínas, pois não toca na raiz do
sofrimento humano.
Do Trauma à Gnose: O Regresso ao Centro
A
história dos "messias mortos" — de Bar Kokhba a Sabbatai Zevi —
revela um padrão de exaustão. O "buraco no peito do tamanho de Deus"
continua a ser projetado em heróis, tiranos e salvadores externos. Contudo, a
verdadeira sabedoria, preservada no silêncio de textos como o de Tomé, sugere
que o Reino não é um lugar para onde se vai, mas uma transparência que se
habita.
O
Messias não é uma personagem que regressa nas nuvens; é um estado de presença
que desperta no coração. O Nazareno não veio para que nos curvássemos perante a
sua divindade, mas para que reconhecêssemos a nossa própria centelha,
injustamente crucificada na matéria e no ego. A verdadeira blasfémia é o
esquecimento de quem somos: o
Ser que habita o ser.
O Despertar: Da Pobreza à Plenitude
A
teologia da espera eterna é a manutenção de uma infância espiritual. Enquanto
aguardamos um "pai cósmico" que resolva a nossa desordem,
permanecemos na pobreza da inconsciência. A salvação é uma obra de alquimia
interior: transformar o chumbo do medo no ouro da Consciência.
Não
há ninguém a caminho para nos salvar, pois o Salvador já habita o quarto
secreto do coração. É hora de acender a luz da gnose. Como ensina a tradição
dos que veem, conhecer-se a si mesmo é conhecer o Todo. A liberdade não é uma
conquista da espada, nem um privilégio da política; é o ato de despertar para a
Natureza Real. Não sejas a carência que espera; sê a Riqueza que se reconhece.
Sê o teu próprio libertador.
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muito mais direto do que eu: forte, belo, libertador.
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Saiba
Mais:
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