Poder, Violência e Verdade no Primeiro Século

Por Hiran de Melo

A história consagrou um nome e silenciou muitos outros. Aprendemos a enxergar o Nazareno como um ponto de ruptura, um acontecimento isolado que dividiu o tempo em antes e depois. No entanto, essa narrativa linear e pacificada não nasce do acaso; ela é fruto de um processo de seleção, organização e legitimação dos discursos. O que chamamos de “história oficial” é menos um espelho neutro do passado e mais o resultado de disputas pelo direito de dizer o que foi — e o que deve ser lembrado.

A Judeia do primeiro século não era um deserto silencioso à espera de uma revelação singular. Era um campo saturado de vozes, promessas e insurreições. O ar da Galileia estava impregnado de expectativas messiânicas. A palavra Mashiach — ungido — não evocava um redentor espiritual etéreo, mas um rei guerreiro, um estrategista político, um restaurador da soberania nacional. A esperança era concreta, territorial, sangrenta. Tratava-se da expulsão de Roma, não da fuga para o céu.

Nesse contexto, o messianismo não pode ser compreendido como mero delírio coletivo ou explosão irracional de fé. Ele emerge como efeito de condições históricas precisas. Quando as legiões de Pompeu invadiram Jerusalém em 63 a.C. e profanaram o Templo — penetrando no Santo dos Santos — o trauma não foi apenas político, mas simbólico. O centro da ordem sagrada foi violado, e nada aconteceu. Nenhum castigo divino fulminou os invasores. O silêncio dos céus produziu uma fissura no regime tradicional de sentido.

A dominação romana não operava apenas por meio de exércitos; ela organizava corpos, territórios e imaginários. A cruz, posteriormente convertida em símbolo de salvação, era então um instrumento pedagógico de terror. Roma não discutia teologia; administrava populações. A crucificação funcionava como tecnologia de poder: um espetáculo público destinado a inscrever no corpo do condenado a mensagem do Império. Cada cruz erguida à beira da estrada era um enunciado político.

A morte de Herodes, o Grande, em 4 a.C., abriu um vácuo que revelou a fragilidade da ordem. Diversos líderes insurgentes reivindicaram a coroa. Prometiam sinais, libertação, restauração. Reuniam multidões no deserto. O historiador Flávio Josefo descreve esse período como uma convulsão permanente, marcada por “impostores” que anunciavam prodígios e eram sumariamente massacrados pelas forças romanas. Mas chamar esses homens de impostores já é adotar a linguagem do vencedor. A própria categoria de “impostura” revela a disputa pelo monopólio da verdade.

É nesse terreno que se deve compreender o surgimento de Jesus. Não como anomalia, mas como acontecimento inscrito numa rede de expectativas e repressões. Ele não aparece fora da história, mas no interior de um campo de forças. Seu discurso — que desloca a esperança da vingança para a outra face, da espada para o perdão — não elimina o horizonte messiânico; ele o reconfigura. A questão não é se era ou não messias, mas qual forma de messianismo se tornaria hegemônica.

O que diferencia sua trajetória da de tantos outros executados pelo Império não é apenas o conteúdo de sua mensagem, mas o destino posterior de seu nome. Após a destruição de Jerusalém no ano 70, a reorganização das comunidades cristãs produziu uma nova leitura dos acontecimentos. O fracasso político foi reinterpretado como vitória espiritual. A cruz deixou de ser o outdoor do terror romano para se tornar signo de redenção universal. O instrumento de dominação foi resignificado como promessa de salvação.

Aqui se revela um mecanismo decisivo: a produção da verdade não se dá fora das relações de poder, mas através delas. Discursos sobrevivem não apenas porque são “verdadeiros”, mas porque conseguem se institucionalizar, criar arquivos, formar comunidades, estabelecer ortodoxias e excluir concorrentes. Os outros messias foram apagados não só pelas espadas romanas, mas pelo esquecimento organizado. Seus nomes não fundaram instituições duradouras. Seus movimentos não produziram uma memória capaz de atravessar séculos.

O chamado “silêncio de Deus” diante da profanação do Templo pode ser relido como deslocamento da autoridade. Quando o centro sagrado não responde, multiplicam-se as vozes que reivindicam falar em seu nome. O messianismo torna-se, assim, um fenômeno de proliferação discursiva. Não é a ausência de fé que gera os salvadores, mas a crise do regime que definia quem tinha o direito legítimo de interpretar a vontade divina.

O desejo por um messias era, antes de tudo, uma forma de sobrevivência psíquica e política. Fome, tributação excessiva, confisco de terras, humilhação cotidiana: essas práticas não produziam apenas miséria material, mas subjetividades marcadas pelo desespero e pela expectativa de ruptura. Quando a realidade se torna intolerável, a promessa de um fim iminente do mundo pode funcionar como estratégia de resistência simbólica.

Nesse cenário, Jesus aparece menos como exceção e mais como ponto de inflexão. Seu êxito histórico não apaga o fato de que competia com muitos outros projetos de salvação. O que hoje reconhecemos como singularidade é, em parte, o resultado de uma vitória narrativa. A memória cristã organizou o passado de modo a destacar uma figura e relegar as demais ao rodapé da história.

Repensar o primeiro século a partir dessa perspectiva não diminui a força da experiência religiosa; ao contrário, devolve-lhe densidade histórica. O messias não desce pronto do céu. Ele é produzido na interseção entre sofrimento coletivo, expectativas simbólicas e disputas pelo poder de dizer a verdade.

Compreender isso não significa reduzir a fé à política, mas reconhecer que toda esperança encarna em corpos, discursos e instituições. O Nazareno não foi o único a prometer redenção. Foi aquele cuja promessa conseguiu sobreviver ao aparelho de morte do Império e, paradoxalmente, transformar o instrumento de execução em fundamento de uma nova ordem de sentido.

A história, afinal, não é apenas o que aconteceu. É o que pôde ser dito, preservado e acreditado. E, no primeiro século, o messias foi menos uma pessoa isolada do que uma função disputada em meio à violência, ao medo e à urgência de que o mundo, tal como estava, não podia continuar.

Recomendo à leitura:

https://clinicahospitaleiros.blogspot.com/2026/02/a-sombra-dos-messias-febre-do-espirito.html

Veja também, irás aproveitar bem melhor:

https://clinicahospitaleiros.blogspot.com/2026/02/a-producao-da-rebeliao-e-economia-do.html


 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog