Sionismo e Resistência Palestina — A Repetição da Máquina de Guerra

Por Hiran de Melo

A genealogia da rebelião, que começa na Judeia do século I com Judas, o Galileu, encontra sua reinscrição no século XX com o surgimento do sionismo político e a fundação do Estado de Israel. Assim como Judas transformou a fé em mandamento de guerra contra Roma, o sionismo transformou narrativas bíblicas em projeto territorial, legitimando a colonização da Palestina como retorno sagrado à terra prometida.

O Sionismo como Dispositivo de Poder

O sionismo, inicialmente concebido como movimento de emancipação judaica na Europa, converteu-se em dispositivo colonial. A criação do Estado de Israel em 1948 não foi apenas um gesto de soberania, mas uma operação de desapropriação. Aldeias palestinas foram destruídas, populações expulsas e territórios redesenhados por mapas ideológicos. Como o censo romano, o sionismo operou pela estatística, pela demarcação e pela expulsão sistemática — uma tecnologia de poder que transforma corpos em números e resistência em ameaça existencial.

A Resistência como Reinscrição Teológica

A resposta palestina não se limitou ao campo político, mas também se inscreveu no campo teológico. Assim como os Zelotes sacralizaram a violência contra Roma, muitos grupos palestinos sacralizaram a resistência contra Israel. O punhal dos sicários reaparece como pedra, foguete, túnel. A fé torna-se prática de guerra, e a luta pela terra é também luta pela dignidade, pela memória e pela sobrevivência.

A Máquina de Guerra Contemporânea

Desde a Nakba em 1948 até os bombardeios em Gaza em 2023, o Estado de Israel tem operado como máquina de guerra contínua. A limpeza étnica denunciada por diversos estudiosos não é evento isolado, mas projeto sistemático. A genealogia da violência se repete: expulsão, cerco, destruição. A fé sionista, que prometia redenção, converte-se em justificativa para o apartheid. A resistência palestina, por sua vez, fragmenta-se entre discursos seculares e religiosos, entre nacionalismo e messianismo, entre diplomacia e martírio.

Impactos Geopolíticos Atuais

A resistência palestina reverbera em múltiplas esferas:

  • Diplomacia Internacional: Países como Irã e Turquia apoiam a causa palestina, enquanto EUA e grande parte da União Europeia mantêm alianças estratégicas com Israel. Essa polarização alimenta impasses em fóruns como a ONU.
  • Movimentos Sociais Globais: Iniciativas como o BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) buscam pressionar Israel economicamente e culturalmente. Redes sociais se tornam campo de batalha simbólico, onde narrativas sobre ocupação e autodeterminação disputam legitimidade.
  • Segurança Regional: A resistência armada, especialmente por grupos como Hamas e Jihad Islâmica, provoca ciclos de violência que afetam não apenas Israel e Palestina, mas toda a estabilidade do Oriente Médio.
  • Transformações Internas: A divisão entre a Autoridade Palestina e o Hamas reflete disputas sobre qual estratégia deve prevalecer. Essa fragmentação enfraquece a coesão política palestina e dificulta negociações.

O Rival Simbólico

Assim como Apolônio de Tiana foi produzido como rival simbólico de Jesus, o Estado de Israel constrói seus próprios rivais: o terrorista, o extremista, o inimigo. A narrativa oficial transforma o palestino em ameaça ontológica, apagando sua história, sua cultura e sua humanidade. A guerra não é apenas física, mas discursiva.

Conclusão

A genealogia da rebelião mostra que os dispositivos de poder se repetem. O sionismo moderno reinscreve a lógica de Judas, o Galileu: a fusão entre fé e dominação. A resistência palestina reinscreve a lógica dos Zelotes: a fusão entre fé e insurreição. Jesus, ao recusar a guerra, tentou instaurar outro regime de verdade, mas sua voz, como a voz palestina hoje, é muitas vezes abafada pelo ruído das armas.

A história não se repete, mas se reinscreve — e cada época escolhe se quer perpetuar a máquina de guerra ou desmontá-la.

Referência:

https://clinicahospitaleiros.blogspot.com/2026/02/genealogia-da-rebeliao-entre-fe-poder-e.html

Leituras interessantes:

Sionismo e Palestina: Uma Análise Crítica da História e da Colonização

https://emdefesadocomunismo.com.br/sionismo-e-palestina-uma-analise-critica-da-historia-e-da-colonizacao/?utm_source=copilot.com

A Colonização Sionista e a Resistência Palestina

https://www.portalaguia.com/post/a-coloniza%C3%A7%C3%A3o-sionista-e-a-resist%C3%AAncia-palestina?utm_source=copilot.com

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